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É monstruoso viajar no Absoluto, objectivo longínquo, e
só receosamente nós o faríamos. Apesar disso deixamo-nos
arrebatar pela pintura de João Vasconcelos, exposta pela
segunda vez em Lisboa.
Ele mostra-nos as suas vastas esferas, o seu universo
cheio de esperança, o seu mundo, do qual retira a força que
lhe confirma o direito à Existência.
Ele aproxima-nos daquilo que nós procuramos,
desconfiados, hesitando, diminui a distância que separa, e
pelo caminho surpreende-nos com estações cintilantes que
nos forçam a parar e a ficar.
Mas até mesmo dos satélites velozes nós saimos sem
esforço, e penetramos confiantes nas órbitas dos astros mais
longínquos. Espontâneamente eles abrem-nos as suas
fronteiras rígidas, assimilando-se a novos esferóides.
Nesses lugares sente-se o terrestre.
Quando nos julgamos sem peso tocamos a terra; quando
procuramos água, encontramos lágrimas; quando sentimos
fogo, é amor; quando nos julgamos abandonados,
encontramo-nos a nós próprios. O Ignorado deixa-se
descobrir, o Oculto torna-se familiar, o Introvertido
Extrovertido.
A pintura cósmica de João Vasconcellos concretiza,
person ifica, o Todo. É missionária. Traz para a nossa
atmosféra terrestre meteoros cuja luminosidade recebemos,
cuja harmonia das esferas nós podemos captar. É Reflexo por
Associação. É Humanização do Cosmos, um
Universo Terreno.
Gertrud Balig-Junker
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