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Sendo a minha formação básica de escultor e estando alguns dos meus trabalhos gráficos quase em conflito, para não dizer desligados da minha escultura, há qualquer coisa que cabe aqui ser dita.
Metade das esculturas com que sonhei nunca vi realizadas. Umas por nunca terem ultrapassado uma fase prematura de elaboração, outras meramente por razões de ordem prática ligadas a circunstâncias várias que me têm encaminhado para um tipo de vida extremamente ambulante e instável, em que a materialização de muitas das minhas ideias escultóricas não tinham lugar.
Assim a solução gráfica surgiu como opção de tempo e de defesa de, buscando a explicação mais primária, passar ao papel aquilo que eu não queria esquecer. No entanto as esculturas têm para mim uma relação directa com sensações físicas relacionadas com factores integrados na vida quotidiana. Espaço, peso, tensão, equilíbrio, ocupação de volume.
Perante todo o fenómeno de concepção e de realização de uma escultura há um período antecedente, que por sua vez pressupõe fases de gestação e de amadurecimento, o período de elaboração em si mesmo, em que o trabalho é sujeito a acrescentos e a alterações, e finalmente, um terceiro período em que milhares de ideias ficam a pairar no ar, como consequência de alternativas para soluções, para opções que poderiam ter sido tomadas e para as quais não houve seguimento porque outras foram escolhidas.
A série de serigrafias com objectos escultóricos em primeiro plano sobre paisagens ao fundo, tem neste terceiro período a sua explicação.
A par destes trabalhos há uma série de papéis de parede como proposta de decoração para vários apartamentos mobilados onde nos últimos anos vivi.
Um outro tipo, executado sobre serigrafias, com colagens de vários materiais, fotografias, recortes de jornais, com um conteúdo sócio-religioso, tem que ver com a orientação de um sentido de humor que ao longo do tempo fui desenvolvendo relacionado com os valores e princípios contidos numa sociedade de que creio ainda fazer parte e à qual ainda em certos aspectos me identifico.
Todos os trabalhos apresentados foram executados em Londres e em Liverpool, mas mais pela simples razão de me encontrar fisicamente lá.
O que fica por dizer, o que está por trás, a cultura, a aprendizagem da vida, a deformação religiosa, etc., etc., são profundamente Portuguesas. A elas fui vinculado e por elas marcado sem que mas dessem a escolher.
De resto, quanto às influências britânicas, penso que elas se sorvem melhor em Portugal, do que estando em Inglaterra, onde elas se podem seleccionar.
Lisboa, 2 de Dezembro de 1973 ALFREDO QUEIROZ RIBEIRO
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