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MAN - Desestructuras

DA NATUREZA E DO HOMEM

1-

Por volta de 1966 minha pintura representava a Natu-reza na sua organização oculta, através de elementos-símbolo estruturais da matéria, para o que me servia de diversos materiais (pano, tela, corela, papel), que recor-tava, amachucava e depois colava para pintar por cima.

Cedo, porém, meu saciamento evoluía para situações dramáticas, em que os símbolos orgânicos deram lugar a uma angustiante necessidade de exprimir o amor, a guerra, a morte..., em que os materiais até então utili-zados foram substituídos por objectos condenados a serem inúteis, por chapas de ferro envelhecidas e fragmentos de vidro..., em que a areia e o cimento formavam a argamassa que tudo unia. Foi um período de verdadeira raiva incontida pela minha impossibilidade de modificar o mundo, em que as telas «escorriam» o sangue e o desespero de uma sociedade descontrolada.

E voltei às formas orgânicas... Mas, agora, a imagem surgiu recortada em relevo, seccionada, desajustada, mutilada... O drama lá estava, repetidamente. A Natureza metomorfoseada e agonizante, símbolo do Homem num beco sem saída. A cor era impessoal e radiosa, (talvez)num disfarçar do drama que ia por dentro...

2-

Foi em 1970 que «descobri» a serigrafia, cuja execução me obriga, também, a uma forte intervenção física, pri- mordial no meu acto de criar, reflexo do meio acto de viver. E com esta «nova» técnica surgiu a geometria. Antes, nunca concebera que pudesse expressar o meu sentir. Hoje, penso que é fundamental. Passa tanto pelo meu cérebro como pelo meu coração. É racional e intui-tiva. É uma necessidade básica. A minha reconciliaçãocom a vida. A essência de meus actos. A harmonia e a ordem oculta.

Comecei por manobrar círculos ocos, seccionando-os e metamorfoseando-os também. Agora, porém, a mutilação deu lugar ao jogo, imagem da própria vida. Jogo com várias soluções, pois ao artista assiste o direito de alterar a chave das suas imagens. E o círculo deu lugar ao quadrado... Se aquele é doçura este é severidade, o que se ajustava melhor ao que pretendia dizer.

Mas o quadrado se transformou em cubo, no jogovirtual do olhar. Cubo (ainda) oco e desestruturado, retratode uma sociedade vazia e angustiada. E ao jogo sucedeu o grande plano... Foi o querer mostrar melhor o motivo de minhas preocupações, a imagem do meu sentir.

3-

Depois, o cubo se esvaziou da cor e do próprio cubo. Ou antes, simplificou-se ainda mais até ser (apenas) memória. Então, surgiu o branco moldado em relevo. Branco que me atraiu pela sua enorme pureza. É a realidade sem mentira. A pura contemplação. O despojo de tudo. Relevo que me obrigou a utilizar a luz. Que é o calor e a regra que tudo molda. O fio labiríntico da visão e da leitura.

Foi o sentir-me entre a aparência e a realidade.Foi o não gritar nem reclamar. Foi o sublimar da minha paixão e da minha dor.

Ao branco sucedeu, de novo, a cor. Cromaticamente densa. Cor que é também luz e força. E o cubo ressurgiu imponente, ainda símbolo. Ainda sublimação. Mas força!Explosão e grito!

Por fim, o cubo foi lançado no espaço, sinal de espe- rança de uma sociedade mais livre, mais justa e maisconfiante. Hoje, sinto que irei reconquistar a Natureza e o Homem. Acabou a sublimação da minha revolta surda,por tanto tempo reprimida. Apetece-me compor «hinos» de liberdade. Já poderei gritar a minha dor e a minha esperança. Penso que todos os homens estão, agora, cheios de felicidade!

MAN

Lisboa, Maio 74

 

 

 
 
 

 

 
José Manuel MAN - nascido em Lisboa, 1941. - Frequência dos cursos de pintura da SNBA (1958(59) e ESBAL (1966/67).- Técnicas de gravura em metal, como bolseiro da FundaçãoGulbenkian (1968), serigrafia e litografia (1970), nas oficinas deGRAVURA, da qual é artista editado.-. Estadias em Madrid, Paris, Nova lorque, Rio de Janeiro e SãoPaulo (1966(73).- Arrania plástico das novas instalações da Ginásio Clube Português(1972/73).- Direcção de um curso de serigrafia no IADE (1973).- Representado em algumas galerias de Lisboa, Porto, Rio de Janeiroe em diversas colecções particulares.- Colaboração no iornal «República» e revista «Desporto» (1973/74).

Expõe desde 1959.Principais representações:

 

Individuais: 1965 - Paisagem. Não Paisagem - Galeria Nacional de Arte 1968 - Anti . Pintura - SNBA 1969 - Metamorfoses - SNI 1971 - Jogos - Galeria S. Francisco 1972 - Quadrados. Metamorfose - Galeria Quadrante 1973 - Aparência. Realidade - Galeria Arte Moderna, SNBA - Jogos Aparentes - Galeria IADE 1974 - Jogos Aparentes - Disputação de Málaga - Desestruturas - Galeria Oltolini

Colectivas Internacionais:

1969- II Bienal Internacional- Madrid 1970 - 41st Seattle Print International - Washington -IX Prémio Intern. Dibujo Joan Miro - Barcelona 1971 -III Bienal Internacional- Barcelona -I Prémio Internacional Dibujo J. Miro - Barcelona 1972 - Concurso Nicholas Copernicus - Cracovia - XX Salon de Grabado - Madrid - III International Print Biennal- Bradford - XI Prémio Int. Dibuio J. Miro - Barcelona e Madrid - 2nd Intern. Biennal of Print - Seoul - Ibizagrafic 72 - Ibiza - II Exposição Intern. de Gravura São Paulo 1973 - XII Prémio Int. Dibuio J. Miro - Barcelona, Sevilha, Girona e Munique

Colectivas Nacionais:

1967 - II Salão Nacional de Arte - II Exposição dos Universitários - V Salão de Arte Moderna do Estoril - XIII Salão de Outono do Estoril (medalha de prata) 1968 - III Salão Nacional de Arte 1969 - IV Salão Nacional de Arte 1970 - Exposição Inaugural da Galeria Corda - IV Exposição de Verão da SNBA - Salão Mobil de Arte - IV Salão de Arte Moderna de Luanda 1971 - V Exposição de Verão da SNBA - Três gravadores na Galeria S. francisco - V Salão de Arte Moderna de Luanda- Gravura Portuguesa Contemporânea, em S. Salvador da Baía e no Casino Estoril 1972 - Exposição-72 da SNBA - I Bienal dos Artistas Novos - VI Salão de Arte Moderna de Luanda - Exposição Inaugural da Galeria Diprove - Gravura Portuguesa Contemporânea, nas Galerias Tempo Livree Mini-Galeria 1973 - VII Salão de Arte Moderna de Luanda - II Exposição Colectiva Quadrante, em Évora - Gravura Portuguesa Contemporânea, nas Galerias Diedro e Espaço - Exposição-73 da SNBA - I Colectiva da Galeria Da Vinci - 13+ 1 Gravadores na Galeria Grafil 1974 - II Exposição AICA - Salão de Março da SNBA - Gravura Portuguesa Contemporânea, nas Galerias Espaço e Tempo Livre