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Ao adoptar a imagem convencional e corrente, posta a circular pelos habituais meios de comunicação de massa, comoo cartaz, a fotografia, a televisão, o cinema, o jornal e a revista ilustrada, Lima de Carvalho tenta interferir na linguagem estereotipada da cidade, denunciando-lhe os tiques e os mitos
.No refazer e no desfazer de imagens desse tipo, a sua pintura reassume os valores grafológicos da mão que detecta os contornos rápidos do transeunte (do homem da rua) ou se fixa nalgum ponto ou pormenor mais característico.
Partindo, por vezes, de uma observação naturalista, tudo é parcialmente deformado, planificado, convertido em imagem gráfica.
Necessariamente, a sua pintura insere-se num determinado contexto sociológico. O apontamento momentâneo, a visão fragmentada da realidade e a coordenação de elementos dispares são integrados na composição compartimentada dos seus quadros. E compartimentada é a vida acelerada da cidade, com todos os seus problemas inerentes. A dificuldade de estar e de respirar. A poluição do ar e a poluição do espírito. A máquina, a produção em série, o ruído e a ditadura da imagem publicitária. A moda e o «slogan». A publicidade promove a moda e contribui para a uniformização do gosto. Os grandes meios de informação influenciam a opinião pública, modelando-a e dirigindo-a segundo os interesses das classes economicamente dominantes, ao ponto de engendrarem a passividade e a anestesia geral. Tudo aparece feito e pronto para ser consumido. Supõe-se que, através da «cultura de massa», tudo será absorvido pelo sistema.
A cidade e os seus símbolos.
O automóvel, a casa de habitação e os electrodomésticos.As montras e as portas automáticas dos grandes estabelecimentos comerciais. O supermercado. O ascensor.Os transportes colectivos: O autocarro e o metropolitano. Arua. O »néon». Os anúncios luminosos. O «Café», O Restaurante, O Hotel e as casas de Espectáculo e Diversão.A alta finança e os monopólios. As grandes empresas. A contabancária e o livro de cheques. As fábricas, as oficinas e a construção civil. O proletariado. A Universidade, as escolas,os museus, as bibliotecas, as livrarias, as galerias de arte e as repartições públicas. A média e a pequena burguesia. A mulher pintada, artificial, sofisticada. A beleza pré fabricada. A figura humana despersonalizada, reduzida a um esquema, uma silhueta, uma massa informe, um vulto.
A cidade e os seus ritos. A burocracia e a rotina. O trabalho e a exploração do homem. A subserviência e a prepotência. O empregado e o patrão. O pobre e o rico. A especulação oportunista. O desemprego e a fome. A miséria e a mendicidade. A assistência social. Os discursos oficiais. A hipocrisia burguesa. Os contrastes e os conflitos. A luta de
classes ao nível da reivindicação social. A contestação e amoral vigente. A imprensa e a censura. A agressão e a repressão.
A cidade e os seus vícios. A obsessão da velocidade e oespírito de competição. A gastronomia. O erotismo e a pornografia.
A cidade e os seus males. O cansaço e a depressão nervosa. A dificuldade de diálogo. A solidão e a angústia. O álcool e o tabaco. A alienação. Não saber agir por sua própria cabeça e risco. Ser incapaz de reagir. Ser apenas uma peça da grande engrenagem. Deixar de pensar, de sentir. Seguir a norma ou o que está estabelecido. Ser um ser passivo, conformista, indiferente, sem vontade própria, desconhecendo-se a si e aos outros. Ignorar, inclusive, as causas da própria destruição.
A cidade e os seus remédios. A ciência e a arte. A psicanálise. A necessidade de reencontrar a natureza.
A cidade e os seus mitos. O dinheiro e o poder. A luta pela promoção social. Os prémios e as condecorações. O vedetismo e o mundanismo. A fama e a glória. As vedetas da canção, do cinema, do teatro, do desporto, da arte e da política.
Ao estabelecer um confronto entre diversos aspectos da realidade urbana, a pintura de Lima Carvalho promove um choque psicológico, alertando a consciência do homem de hoje,entre o que ele é e o que deixou de ser. E é em termos especificamente plásticos que a sua pintura se define, ora primária, desconexa e agressiva, ora serena e equilibrada. E é pela via do contraste e da sensibilização que a imagem convencional, falsa, impessoal e impostora, é desfeita, desconvencionalizada, tornada outra, mais gráfica, mais emotiva, mais desfigurada, mais próxima duma sensibilidade recuperada.
O artista movimenta-se entre o anonimato de rostos irreconheciyeis e os símbolos e mitos da civilização burguesa.
Tomando como referência o real quotidiano da vida urbana,agitada e controversa, o gesto do pintor começa por incidir sobre as aparências mais banais, mais exteriores, para logo as remover e transfigurar, no sentido de tentar redescobrir «o que há de essencial no efémero» ou o que se esconde por detrás da vulgarização da imagem.
Ao procurar captar a essência do trivial, a sua pintura tende a ser apenas o registo gráfico de uma transformação vivida no próprio plano frontal do suporte, onde a mão, uma vez solta ou desautomatizada, vibra ao menor impulso: à mão inconsequentee sensível, que tão depressa retoma o modelo, como o abandona e o esquece provisoriamente, para de novo o evocar no traçado rápido que emerge da sua própria sombra ou destruição.
Eurico Gonçalves
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