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Carlos Ferreiro

 

(A princípio era o desenho: eram cidades que a obsessão minuciosamente construía; cidades que a peste minava e corroia, imóveis na vertigem e no desequilíbrio - lugares paradoxais de uma fascinação e de uma asfixia; lugares-armadilha onde, por vezes, surgiam batráquios dansando num erotismo de pesadelo.) - (1.a exposição nas "Belas-Artes").

Na pintura, aqui, digamos que tudo parece recomeçar com uma figura que, de costas para nós, olha através de uma janela(?) para um espaço que só o seu olhar avista. Ou então: é como se num "écran" a câmara de filmar fragmentàriamente jnventasse o seu próprio interior, a paisagem insuportável das suas paredes internas.

- São então paisagens. Ou fragmentos de cenas. Ou tão só figuras. - Entrecortada narração de um olhar fascinado pelos seus fantasmas; ao mesmo tempo atraído e prisioneiro enfurecido.

- De quadro para quadro podem alterar-se as figuras, as zonas da paisagem, o ângulo da visão; podem metamorfosear-se os fantasmas, mas mantém-se a mesma violência, ainda que diferentemente conseguida, a mesma tensão entre a fascinação e a repugnância.

- Mas não só. Repetem-se também e sintomàticamente os sinais de uma vida visceral, quase larvar, projecção fantasmá- tica onde o líbido grava as suas marcas com uma alucinada nitidez. São por vezes vísceras, mucosas, contruções tubulares, tecidos esponjosos ou cartilagíneos, torrentes ou derrames grossos e densos, vómitos, línguas que se alongam e incham, bocas que sangram e se aveludam, anéis que estrangulam, figuras esfaceladas...

-…Solidão e asfixia, delírio e agressão. São os modos de um desejo a que uma fronteira se impõe.

Manuel Gusmão 15-5-72

 

 

 

 
 


 

Carlos Ferreiro, nasceu em Lisboa, em 1942. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Dedica-se às artes gráficas (desenho e ilustração) tendo passado também pelo teatro de revista, como cenógrafo. Trabalhou no cinema com Fernando Lopes (assistente de operador do filme «Uma abelha na chuva»). Depois trabalhou com João César Monteiro («Sapatos de defunto») e com Fernando Matos Silva. Foi colaborador no «Diário de Lisboa», como artista gráfico, ai reali- zando um trabalho de ilustrador já confirmado no dominio público. Expôs na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Vive actualmente em Londres.