(A princípio era o desenho: eram cidades que a obsessão
minuciosamente construía; cidades que a peste minava e corroia,
imóveis na vertigem e no desequilíbrio - lugares paradoxais de
uma fascinação e de uma asfixia; lugares-armadilha onde, por
vezes, surgiam batráquios dansando num erotismo de pesadelo.)
- (1.a exposição nas "Belas-Artes").
Na pintura, aqui, digamos que tudo parece recomeçar com uma
figura que, de costas para nós, olha através de uma janela(?)
para um espaço que só o seu olhar avista. Ou então: é como
se num "écran" a câmara de filmar fragmentàriamente jnventasse
o seu próprio interior, a paisagem insuportável das suas
paredes internas.
- São então paisagens. Ou fragmentos de cenas. Ou tão só
figuras. - Entrecortada narração de um olhar fascinado pelos
seus fantasmas; ao mesmo tempo atraído e prisioneiro enfurecido.
- De quadro para quadro podem alterar-se as figuras, as zonas
da paisagem, o ângulo da visão; podem metamorfosear-se os
fantasmas, mas mantém-se a mesma violência, ainda que
diferentemente conseguida, a mesma tensão entre a fascinação
e a repugnância.
- Mas não só. Repetem-se também e sintomàticamente os
sinais de uma vida visceral, quase larvar, projecção fantasmá-
tica onde o líbido grava as suas marcas com uma alucinada
nitidez. São por vezes vísceras, mucosas, contruções tubulares,
tecidos esponjosos ou cartilagíneos, torrentes ou derrames
grossos e densos, vómitos, línguas que se alongam e incham,
bocas que sangram e se aveludam, anéis que estrangulam,
figuras esfaceladas...
-…Solidão e asfixia, delírio e agressão. São os modos de um
desejo a que uma fronteira se impõe.
Manuel Gusmão 15-5-72
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